quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sou feita de carne, osso e alma e não de ferro frio.

De repente olhando todos os exames, juntos, em ordem cronológica, minha história com o câncer passa como trailer na minha mente, um vídeo em alta velocidade. Um arrepio na espinha, uma sensação quente de gratidão no peito (comuns quando se trata deste assunto). Mas eu paro em uma cena e desabo, o choro vem em “cascata”, daqueles que ninguém segura, daqueles que não são sutis, que precisam ser postos para fora...
A cena: “Acordo assustada com a blusa do pijama ensopada, acendo a luz e vejo o pijama molhado por um líquido vermelho amarelado, que nitidamente saia da minha mama operada há 5 dias. Meus pais estavam dormindo no quarto ao lado, tinham acabado de receber a notícia que minha tia-avó tinha câncer de fígado (muito mais grave que o meu, especialmente pela idade dela). Nem cogitei em chama-los. Pego o telefone aos prantos e fico horas, pedindo, implorando para ele vir ficar comigo. Eu não quero ir para o hospital, eu não quero acordar meus pais, eu só queria que ele viesse segurar minha mão, ficar comigo e me abraçar, dizer que não vou morrer, sei lá, dizer que me ama ou não dizer nada, apenas segurar minha mão. Mas ele não vem, diz não ser médico, diz não saber o que fazer, diz ser duas e meia da manhã, diz que eu não preciso me desesperar, diz para eu dormir, diz tudo e não diz nada. E não vem, não segura minha mão.”

Quando o assunto é câncer as pessoas reagem de formas diferentes, quando o assunto é Amor também. Não sei ainda dizer o que é certo ou errado, qual o melhor jeito de lidar com catástrofes ou qual a melhor maneira de amar. Ainda estou descobrindo as minhas próprias maneiras. Mas ali, naquela cena eu comecei a descobrir o que eu NÃO queria pra mim.
Naquela madrugada eu descobri como é sentir medo, solidão, abandono, o que é dor na alma. Exagero? Não sei, mas foi o que eu senti. Sei disso porque hoje 6 anos depois foi o que senti novamente ao relembrar a cena, foi o que me paralisou e me fez desabar em lágrimas.

Não sei o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? As pessoas me tratam como uma rocha porque sou forte ou sou forte porque as pessoas me tratam feito uma rocha? 

Não me lembro da última vez que me colocaram nos braços, cuidaram de tudo para mim e me mimaram. Mas lembro da última vez que reagi mal a uma gentileza. Então, novamente, o que vem primeiro? O que diabos eu comunico para as pessoas suporem que eu aguento de tudo e sozinha? Hoje eu entendo com mais clareza! E venho mudando isso.

Sou forte, mas sou feita de carne, osso e alma e não de ferro frio.
O fato de eu ser forte, independente, esconde minhas fragilidades, mas não as elimina. E não quero que elimine, sou humana, quero SER humana, quero que me permitam chorar quando precisar, que segurem minha mãe quando necessário e até que me carreguem no colo quando não der conta de andar sozinha....
Quero Amor, carinho, cuidado...

Porque a Vida é bonita, é bonita e é bonita!!!!!